Como a vida melhora a morte?

Sou filha de médico e cresci no meio deles. Os amigos da faculdade do meu pai eram considerados meus tios e, em vários momentos, foram meus médicos. Durante quatro anos trabalhei com meu pai em seu laboratório de análises clínicas.

Também trabalhei um ano e quatro meses com minha mãe no Instituto Adolfo Lutz, onde ela era a bibliotecária-chefe. A biblioteca de casa sempre foi grande e tínhamos muitos e muitos livros de medicina, atlas maravilhosos sobre o corpo humano, o sangue (meu pai era patologista), fazendo com que acompanhar doenças e doentes fosse sempre um dos meus assuntos à mesa.

Para esse tema corriqueiro virar foco de estudo, demorou muito. Poderia ter me interessado por qualquer uma das carreiras da saúde, mas nunca quis enxergar vocação e fui andando em paralelo como jornalista, às vezes cruzando conhecimento, escrevendo uma matéria aqui, pautando outra ali e assim fui levando.

A faculdade de direito acabou direcionando as luzes sobre a morte e nela mergulhei profundamente. Fiz minha monografia sobre a (in)viabilidade jurídica de ter uma morte digna no Brasil. Discorri sobre seus caminhos tortuosos, porém disponíveis e no doutorado pesquisei a representação social da morte e do morrer.

Publiquei um artigo aqui e outro acolá, dei uma aula aqui, outra ali e proferi uma ou outra palestra em congressos jurídicos, além de disponibilizar um modesto site (morrerbem.com.br) sobre o assunto. Visitei cemitérios, UTIs, acompanhei a angústia de doentes terminais, doentes prestes a entrar em uma fase terminal e familiares de quem morreu.

As pessoas definitivamente têm o direito de morrer em paz e de escolher que fim pretendem ter, escrevendo e fazendo valer suas diretivas antecipadas de vontade, com ou sem a ajuda de advogados.

A sociedade também tem o direito de discutir se a morte digna é uma meta, se permitir a eutanásia ou o suicídio assistido são direitos que devem ou não ser de todos, de apenas alguma parcela da população ou se só é para quem tem dinheiro suficiente para bancar o turismo da morte.

A vida é um direito assegurado constitucionalmente e dela fazem parte a dignidade da pessoa humana e o exercício da autonomia da vontade.

Desde 2020 sou pesquisadora do grupo de Biodireito, Bioética e Direitos Humanos da Universidade Federal de Uberlândia / CNPq, coordenado pela professora doutora Claudia Loureiro e, nele, entendi que esses dois direitos juntos permeiam toda a medicina.

Estudei diversas maneiras nas quais eles se manifestam: na cirurgia bariátrica de menores, no aborto de anencéfalos, no direito à recusa de transfusão de sangue das Testemunhas de Jeová, na terapia gênica, na pandemia, na doação de órgãos e muito mais.

Depois de tanto respirar o assunto, pensando aleatoriamente nas minhas aulas de administração, consegui entender que a morte é fim e não meio. O meio é a saúde. Quem nos diz, em grande parte, como será a nossa morte é a preocupação que temos hoje com a saúde que teremos.

Claro, há exceções como acidentes, vícios, fatalidades, doenças congênitas, mas quando falo em saúde, não estou pensando na academia e na boa forma propiciada por cirurgias plásticas, procedimentos dermatológicos ou perfumaria. Esse “shape” propagado pela indústria da beleza também é fim. O meio é como cuidamos das mitocôndrias, das células, dos órgãos, da alimentação, da suplementação…

E lá fui eu, de novo, estudar como é que a vida pode melhorar a morte, como a medicina regenerativa pode minimizar ou curar doenças, como o foco tem que se manter na manutenção da máquina humana com todas as suas engrenagens funcionando para que a velhice seja plena e, a morte, o menos sofrida possível.

Para alcançar esse difícil objetivo, esse ano comecei uma pós-graduação em Adequação Nutricional e Manutenção da Homeostase com o Dr Lair Ribeiro. Fera para uns, controverso para muitos, mas com toda certeza na vanguarda de um novo olhar sobre o modus vivendi.

A vanguarda é sempre onde devemos estar. Mesmo sendo difícil, mesmo sendo um caminho tortuoso e cheio de dúvidas. Sair do comum, procurar novas possibilidades, novas opiniões, novas formas de fazer o mesmo e o óbvio é o que nos leva para frente. Desafiando o que sabemos é que chegamos perto de novas descobertas e conseguimos trilhar novas possibilidades.

A medicina das poderosas drogas quimioterápicas, das cirurgias por robôs, das células-tronco e a dos suplementos está disponível para todos. Pode não estar ao alcance de todos, mas existe, seja nos grupos de estudos experimentais, nas universidades, nos hospitais cinco estrelas, modestamente no SUS, nos consultórios, na suplementação ou na horta doméstica. Saber usar os ingredientes para ter mais força, mais vitalidade e chegar ao fim da vida com cognição e força suficientes para ter autonomia é, sem dúvida, o desejo de todos.

Não temos o poder de não ficar doentes, mas podemos minimizar a possibilidade do corpo adoecer com uma alimentação regrada, com a ingestão de menos produtos industrializados, aumentando a imunidade, suplementando, usando o conhecimento de outras medicinas e não só daquela que conhecemos, buscando novas alternativas para aproveitar melhor a capacidade de ir e vir e de não depender de qualquer ajuda para andar, comer ou ir ao banheiro.

Ninguém vai ficar neste planeta para sempre. Meus estudos indicam que a maioria dos entrevistados afirma não ter medo da morte, mas do sofrimento atroz que muitos de seus pares padecem no final de vida nos hospitais. Mudar essa realidade, incluir cuidados paliativos no horizonte, meditação, exercícios, dieta equilibrada, etc., certamente é o grande desafio que, individualmente, todos devem ter em mente. Não basta querer. É preciso dar o primeiro passo.

Espero que você possa incluir em seus planos uma pequena mudança para que, quando o dia do fim chegar, ele seja infinitamente menos dolorido e muito mais leve.

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